Uma chance.

Um catador de papelão. Foi quem me despertou no meio do dia, no meio da vida. Eu já o vi pelos arredores em um ou outro dia e ao cruzar com o seu olhar todas as vezes ele me dá uma bronca, mesmo sem saber.

Carregando sempre o mesmo olhar apreensivo e um tanto triste.

Não saberia dizer quantos anos tem. O rosto marcado, manchado de sol e cheio de rugas, adornado por uma barba e um cabelo grisalho e bem aparados.

Franzino, apoiado na barra que possibilita puxar a carroça de duas rodas, cheia de espaço para qualquer coisa que ele possa carregar.

Toda a oportunidade que a vida lhe deu está ali, sob o comando da sua carroça, para dia e talvez até noite, recolher o que encontrar pelas ruas dessa não tão amigável cidade e resgatar algum sustento, uma peça de roupa, uma par de tênis para um filho, será?

Cruzo meu olhar com o dele por 30 segundos e sempre me faço as mesmas perguntas.

Será que ele já comeu hoje?

Eu estava na rua para comprar o meu almoço, o luxo de poder fazer mais de 3 refeições por dia. Comprar. Com o dinheiro que recebo por conta do serviço que presto. Quando começou o dia lamentei o cliente que ligou, o trabalho que estava à minha espera. Lamentei ter que almoçar um misto quente.

Então cruzei mais uma vez com o Sr. Catador. E mais uma vez seus olhos me disseram “Quer trocar de chance?”

Imagem

foto mensagem groselha do dia

Playing Games

Perguntas Óbvias

De: JAP
Enviada em: quarta-feira, 17 de abril de 2013 08:29
Para: NCS
Assunto: Perguntas óbvias

e essas perguntas de vagas de emprego, me parecem enlouquecedoras.

“1° Faça um resumo de sua experiência na área jurídica e qual sua expectativa quanto a vaga.”

sério, pra quê?
Dá vontade de responder:

” Tenho experiência em catar todo mundo nos trabalhos (vide meus ultimos namoros). Sou excelente profissional, trabalho bem pra caralho. Mais do que muita gente por aí que arrota ser foda.
Sou desequilibrada, faço uso de medicação controlada e a única expectativa que tenho é que me paguem bem. Fim”

De: NCS
Enviada em: quarta-feira, 17 de abril de 2013 11:05
Para: JAP
Assunto: RES: Perguntas óbvias

Num dia como hoje, que to encaralhada, eu responderia:

 “Minha experiência é a de fingir que me importo e trabalhar feito otária 9 horas por dia há 10 anos, pra ganhar uma mixaria de salário e me iludir, achando que algum dia serei alguma coisa de importante, terei casa, viagens e tempo pra gastar ajudando quem precisa. Quando, na verdade, serei só mais uma classe média dessa cidade fétida que vai envelhecer reclamando do governo e do plano de aposentadoria, terei uma vida mediana, com dias medianos, uma família mediana e provavelmente na minha velhice não haverá mais água potável no mundo”

 “Qual a minha expectativa quanto a vaga: Ser feita de otária mais uma vez, contratem-me”

O que eu teria vontade de responder em outros dias: a mesmíssima coisa.

Bjos, fella

“One Life”

Me falta tempo e criatividade, me sobra preguiça… Mil coisas chegam a transitar pelo pensamento mas não tenho transformado nenhuma delas em palavra. Acho que estou em um recesso criativo.

Mas encontrei algo digníssimo de ser compartilhado essa manhã e quis aproveitar! Acho um desperdício dividir coisas tão legais em redes sociais, onde tudo acaba ficando perdido numa timeline sempre tumultuada e nem sempre de bom gosto.

Enfim, o vídeo é  uma animação,  que ao mesmo tempo traz uma ternura e  alegria na mensagem, assim como um pouco de tristeza.

Achei fascinante, como três minutos, uma música e um desenho de computador podem transmitir tão bem um conjunto de sensações e perturbações tão exclusivamente humanas…

Assiste aí:

A Animação é da Aniboom.com .

de 26 a 27

But life being what it is – a series of intersecting lives and incidents, out of anyone’s control …

Um ano completo. 365 dias se foram, começam outros. O que isso significa?

Mais do que uma contagem de quanto tempo já se passou, uma janela que permite observar o quanto conquistamos e quais sonhos ainda estão só no pensamento.

O último ano, não vi passar. Era espreguiçar, tomar um café e cada dia trazia acontecimentos ao mesmo tempo sensacionais e perturbadores.

Algumas coisas foram planejadas, mas apenas a menor parte delas. Porque é de conhecimento de toda a humanidade que nós fazemos planos e a vida faz outros. Alguns funcionaram, outros foram adiados, muitos inesperados, vieram e surpreenderam. Houve começo e inevitavelmente, fim. 

Chego ao inevitável aniversário seguinte numa nostalgia randômica, de contabilizar tudo o que aconteceu, tudo o que fiz e deixei de fazer. 

Quase sempre a conclusão é: me perdi!

Não por completo, ainda não como deveria ser e isso tem um traço de frustração. 

Ao mesmo tempo, não dá pra dizer que a estrada está toda ruim, só é preciso que a urgência continue a martelar, cada vez mais forte, que existem quilômetros, milhas e léguas para percorrer.

Com planos ou sem planos… 

For what it’s worth: it’s never too late or, in my case, too early to be whoever you want to be. There’s no time limit, stop whenever you want. You can change or stay the same, there are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. And I hope you see things that startle you. I hope you feel things you never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life you’re proud of. If you find that you’re not, I hope you have the strength to start all over again. 

 

*quotes from The Curious Case of Benjamin Button (http://www.imdb.com/title/tt0421715/quotes)

Saudade es soledad acompañada

 

Saudade es soledad acompañada
Es cuando el amor no se fue aún, pero la amada sí
Saudade es amar un pasado que todavía no pasó
Es rehusar un presente que nos lastima,
Es no ver el futuro que nos convida…
Saudade es sentir que existe lo que no existe más…
Saudade es el infierno de los que perdieron
Es el dolor de los que quedaron atrás
Es el gusto a muerte en la boca de los que siguen…
Sólo una persona en el mundo desea sentir saudade:
“Aquella que nunca amó”
Y ese es el mayor de los sufrimientos:
No tener por quién tener Saudades,
Pasar por la vida y no vivir.
El mayor de los sufrimientos es no haber nunca sufrido.

(Poesia atribuída a Pablo Neruda)

 

Um Mendigo Original

Morreu trasanteontem, às 7 da tarde, de uma congestão, o meu particular amigo, o mendigo Justino Antônio.

Era um homem considerável, sutil e sórdido, com uma rija organização cerebral que se estabelecia neste princípio perfeito: a sociedade tem de dar-me tudo quanto goza, sem abundância mais também sem o meu trabalho – princípio que não era socialista, mas era cumprido à risca pela prática rigorosa.

A primeira vez que vi Justino Antônio num alfarrabista da Rua São José foi em dia de sábado. Tinha um fraque verde, as botas rotas, o cabelo empastado e uma barba de profeta, suja e cheia de lêndeas. Entrou, estendeu a mão ao alfarrabista.

– Hoje, não tem.

– Devo notar que há já dois sábados nada me dás.

– Não seja importuno. Já disse.

– Bem, não te zangues. Notei apenas porque a recusa não foi para sempre. Este cidadão, entretanto, vai ceder-me quinhentos réis.

– Eu!

– Está claro. Fica com esta despesinha a mais: quinhentos réis aos sábados. É melhor dar a um pobre do que tomar um chope. Peço, porém, para notares que não sou um mordedor, sou mendigo, esmolo, esmolo há vinte anos. Tens diante de ti um mendigo autêntico.

– E por que não trabalha?

– Porque é inútil.

Dei sorrindo a cédula. Justino não agradeceu, e quando o vimos pelas costas, o alfarrabista indignado prorrompeu contra o malandrim que com tamanho descaro arrancava os níqueis à algibeira alheia. Achei original Justino. Como mendigo era uma curiosa figura perdida em plena cidade, capaz de permitir um pouco de fantasia filosófica em torno de sua diogênica dignidade. Mas o mendigo desapareceu, e só um mês depois, ao sair de casa, encontrei-o à porta.

– Deves-me dois mil-réis de quatro sábados, e venho ver se me arranjas umas horas usadas. Estas estão em petição de miséria.

Fi-lo entrar, esperar à porta da saleta, forneci-lhe botas e dinheiro.

– E se me desses o almoço?

Mandei arranjar um prato farto, e com a gula de descrevê-lo, fui generoso.

– Vem para a mesa.

– A mesa e o talher são inutilidades. Não peço senão o que necessito no momento. Pode-se comer perfeitamente sem mesa e sem talher.

Sentou-se num degrau da escada e comeu gravemente o pratarraz. Depois pediu água, limpou as mãos nas calças e desceu.

– Espera aí, homem. Que diabo! Nem dizes obrigado.

– É inútil dizer obrigado. Só deste o que falta não te faria. E deste por vontade. Talvez fosse até por interesse. Deste-me as botas velhas como quem compra um livro novo. Conheço-te.

– Conheces-me?

– Não te enchas, vaidoso. Eu conheço toda a gente. Até para o mês.

– Queres um copo de vinho?

– Não. Costumo embriagar-me às quintas; hoje é segunda.

Confesso que o mendigo não me deixou uma impressão agradável. Mas era quanto possível novo, inédito, com a sua grosseria e as suas atitudes de Sócrates de ensinamentos. E diariamente lembrava a sua figura, a sua barba cheia de lêndeas… Uma vez vi-o na galeria da Câmara, na primeira fila, assistindo aos debates, e na mesma noite, entrando num teatro do Rocio, o empresário desolado disse-me:

– Ah! não imaginas a vazante! É tal que mandei entrar o Justino.

– Que Justino?

– Não conheces? Um mendigo, um tipo muito interessante, que gosta de teatro. Chega à bilheteira e diz: “Hoje não arranjei dinheiro. Posso entrar?” A primeira vez que me vieram contar a pilhéria achei tanta graça que consenti. Agora, quando arranja dez tostões compra a senha sem dizer palavra e entra. Quando não arranja repete a frase e entra. Um que mal faz?

Fui ver o curioso homem. Estava em pé em geral, prestando uma sinistra atenção às facécias de certo cômico.

– Justino, por que não te sentas?

– É inútil. Vejo bem de pé.

– Mas o empresário…

– Contento-me com a generosidade do empresário.

– Mas na Câmara estava sentado.

– Lá é a comunhão que paga.

Insisti no interrogatório, a falar da peça, dos atores, dos prazeres, da vida, do
Justino conservou-se mudo. No intervalo convidei-o a tomar uma soda, por não ser quinta-feira.

– Soda é inútil. Estás a aborrecer-me. Vai embora.

Outra qualquer pessoa ficaria indignadíssima. Eu curvei resignadamente a cabeça e acabei vexado.

A voz daquele homem, branca, fria, igual, no mesmo tom, era inexorável.
– É um tipo o teu espectador – disse ao empresário.

– Ah!… ninguém lhe arranca palavra. Sabes que nunca me disse obrigado?

Eu andava precisamente neste tempo a interrogar mendigos para um inquérito à vida da miséria urbana e alguns dos artigos já haviam aparecido. Dias depois, estando a comprar charutos, entra pela tabacaria adentro o homem estranho.

– Queres um charuto?

– Inútil. Só fumo às terças e aos domingos. Os charuteiros fornecem-me. Entrei para receber os meus dois mil-réis atrasados e para dizer que não te metas a escrever a meu respeito.

– Por quê?

– Porque abomino a minha pessoa em letra de forma, apesar de nunca a ter visto assim. Se fizeres a feia ação, sou forçado a brigar contigo, sempre que te encontrar.

A perspectiva de rolar na via pública com um mendigo não me sorria. Justino faria tudo quanto dissera. Depois era um fenômeno de hipnose. Estava inteiramente dominado, escravizado àquela figura esfingética da lama urbana, não tinha forças para resistir à sua calma e fria vontade. Oh! ouvir esse homem! Saber-lhe a vida!

Como certa vez entretanto, à 1 hora da manhã, atravessasse o equívoco e silencioso jardim do Rocio, vi uma altercação num banco. Era o tempo em que a polícia resolvera não deixar os vagabundos dormirem nos bancos. Na noite de luar, dois guardas civis batiam-se contra um vulto esquálido de grandes barbas. Acerquei-me. Era ele.

– Vamos, seu vagabundo.

– É inútil. Não vou.

– Vai à força!

– É inútil. Sabem o que é este banco para mim? A minha cama de verão há doze anos! De uma hora em diante, por direito de hábito, respeitam-na todos. Tenho visto passar muito guarda, muito suplente, muito delegado. Eles vão-se, eu fico. Nem tu, nem o suplente, nem o comissário, nem o delegado, nem o chefe serão capazes de me tirar esse direito. Moro neste banco há uma dúzia de anos. Boa-noite.

Os civis iam fazer uma violência. Tive de intervir, convencê-los, mostrar autoridade, enquanto Justino, recostado e impassível, dizia:

– Deixa. Eles levam-me, eu volto.

Afinal os guardas acederam, e Justino deitou-se completamente.

– Foi inútil. Não precisava. Mas eu sou teu amigo?

– Meu amigo?

– Certo. Nunca te pedi nada que te pudesse fazer falta e nunca te menti. Fica certo. Sou o teu melhor amigo, sou o melhor amigo de toda a gente.

– E não gostas de ninguém.

– Não é preciso gostar para ser amigo. Amigo é o que não sacrifica.

E desde então comecei a sacrificar-me voluntariamente por ele, a correr à polícia quando o sabia preso, a procurá-lo quando o não via e desesperado porque não aceitava mais de dois mil-réis da minha bolsa, e dizia, inexorável, a cada prova da minha simpatia:

– É inútil, inteiramente inútil!

Durante três anos dei-me com ele sem saber quantos anos tinha ou onde nascera. Nem isso. Apenas ao cabo de seis meses consegui saber que fumava aos domingos e às terças, embebedava-se às quintas, ia ao teatro às sextas e às segundas, e todo dia à Câmara. Nas noites de chuva dormia no chão! Numa hospedaria; em noites secas no seu banco. Nunca tomava banho, pedia pouco, e ao menor alarde de generosidade, limitava o alarde com o seu desolador: é inútil. Teria tido vida melhor? Fora rico, sábio? Amara? Odiara? Sofrera? Ninguém sabia! Um dia disse-lhe:

– A tua vida é exemplar. És o Buda contemporâneo da Avenida.

Ele respondeu:

– É um erro servir de exemplo. Vivo assim porque entendo viver assim. Condensei apenas os baixos instintos da cobiça, exploração, depravação, egoísmo em que se debatem os homens se na consciência de uma vontade que se restringe e por isso é forte. Numa sociedade em que os parasitas tripudiam – é inútil trabalhar. O trabalho é de resto inútil. Resolvi conduzir-me sem idéias, sem interesse, no meio do desencadear de interesses confessados e inconfessáveis. Sou uma espécie de imposto mínimo, e por isso nem sou malandro, nem mendigo, nem um homem como qualquer – porque não quero mais do que isso.

– E não amas?

– Nem a mim mesmo porque é inútil. Desses interesses encadeados resolvi, em lugar de explorar a caridade ou outro genêro de comércio, tirar a percentagem mínima, e daí o ter vivido sem esforço com todos os prazeres da sociedade, sem invejas e sem excessos, despercebido como o invísivel. Que fazes tu? Escreves? Tempo perdido com pretensões a tempo ganho. Que gozas tu? Teatros, jantares, festas em excesso nos melhores lugares. Eu gozo também quando tenho vontade, no dia de porcentagem no lugar que quero – o menor, o insignificante – os teatros e tudo quanto a cidade pode dar de interessante aos olhos. Apenas sem ser apontado e sem ter ódios.

– Que inteligência a tua!

– A verdadeira inteligência é a que se limita para evitar dissabores. Tu podes ter contrariedades. Eu nunca as tive. Nem as terei. Com o meu sistema, dispenso-me de sentir e de fingir, não preciso de ti nem de ninguém, retirando dos defeitos e das organizações más dos homens o subsídio da minha calma vida.

– É prodigioso.

– É um sistema, que serias incapaz de praticar, porque tu és como todos os outros, ambicioso e sensual.

Quando soube da sua morte corri ao necrotério a fazer-lhe o enterro. Não era possível. Justino tinha deixado um bilhete no bolso pedindo que o enterrassem na vala comum “a entrada geral do espetáculo dos vermes”.

Saí desolado porque essa criatura fora a única que não me dera nem me tirara, e não chorara, e não sofrera e não gritara, amigo ideal de uma cidade inteira fazendo o que queria sem ir contra pessoa alguma, livre de nós como nós livres dele, a dez mil léguas de nós, posto que ao nosso lado.

E também com certa raiva – por que não dizê-lo? – porque o meu interesse fora apenas o desejo teimoso de descobrir um segredo que talvez não tivesse.

Enfim morreu. Ninguém sabia da sua vida, ninguém falou da sua morte. Um bem? Um mal?

Nem uma nem outra coisa, porque, afinal, na vida tudo é inteiramente inútil…

João do Rio